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Parabéns: acabou de ser promovido a gestor! E nem deu por isso!

16 de setembro de 2026

Parabéns: acabou de ser promovido a gestor! E nem deu por isso!

Não houve email da administração, não houve aumento, não houve aquele almoço simpático a anunciar a novidade. Mas aconteceu na mesma. Se está a ler isto em 2026, há uma boa probabilidade de já estar a gerir uma equipa que não bebe café, não pede férias em agosto e trabalha às 3 da manhã sem se queixar.

A grande tendência de negócio da IA não é a IA em si. É o que ela obriga a tornarmo-nos. Em managers.

Toda a gente vai gerir agentes, até quem entrou ontem

Durante décadas, ser promovido a gestor era o prémio de fim de linha: primeiro fazia-se o trabalho, depois, com sorte e paciência, geria-se quem o fazia. Essa lógica está a inverter-se. O júnior que ontem tratava do relatório à mão passa hoje a orientar um conjunto de agentes que tratam do relatório e o trabalho dele deixa de ser fazer e passa a ser decidir o que vale a pena fazer, rever, e dar o sim.

A mudança tem nome pouco elegante: passámos do trabalho baseado em instruções para o trabalho baseado em intenção. Deixamos de construir a folha de cálculo célula a célula e passamos a dizer o resultado que queremos e a supervisionar quem lá chega.

A Google Cloud, que ouviu mais de 3.400 líderes para o seu relatório de 2026, resume-o de forma direta: cada colaborador, do analista em início de carreira ao vice-presidente, torna-se um supervisor de agentes. A Gartner projeta que, até 2028, cerca de 15% das decisões diárias de trabalho sejam tomadas de forma autónoma por IA partindo de praticamente zero há dois anos. E a média já ronda a dúzia de agentes por empresa.

Traduzindo para linguagem de escritório: toda a gente vai ter uma equipa. Inclusive quem nunca geriu ninguém e jurava que nunca o faria. A boa notícia é que os seus agentes não vão a reuniões desnecessárias. A má é que a responsabilidade por aquilo que eles produzem continua a ter o seu nome.

O humano não sai de cena, apenas muda de cadeira

Aqui está a parte que os títulos apocalípticos costumam esquecer. Quanto mais capazes ficam as máquinas, mais valioso se torna o discernimento humano. Um agente gera probabilidades, não certezas. Alguém tem de olhar para o resultado e fazer a pergunta mais subestimada da nova economia: "isto faz sentido?" .

Esse "isto faz sentido?" é o novo controlo de qualidade da realidade. É o humano que valida, que apanha o erro que passou em todos os evals, que percebe que a resposta está tecnicamente correta e comercialmente desastrosa. Os dados de 2026 são teimosos neste ponto: a precisão do modelo dá-lhe um piloto, mas é a confiança que lhe dá utilização real. Quase metade dos colaboradores já admitiu evitar uma ferramenta de IA e fazer a tarefa à mão e um terço fê-lo sem dizer nada ao gestor. Um modelo em que a organização não confia não é inovação; é software a ganhar pó.

E há uma dimensão que nenhum agente vai roubar tão cedo: humanizar as relações. As empresas não fazem negócio com APIs; fazem negócio com pessoas. O momento em que se acomoda um cliente difícil, em que se dá margem a um fornecedor que passou por um mês mau, em que se protege uma relação em vez da margem, essas decisões foram sempre tomadas uma interação de cada vez, por pessoas. A IA pode informar cada uma delas. Não pode assiná-las por nós. A pergunta que define esta era não é "o que consegue a inteligência artificial fazer?", mas sim "quais das nossas decisões merecem ser escaladas e quais merecem continuar humanas?".

A economia dos tokens: onde a conta chega sempre

Agora a parte que faz os CFO acordarem a meio da noite.

Durante quase vinte anos o software empresarial funcionou com uma promessa simples: paga-se por lugar, escala-se de forma previsível. A IA agentic partiu esse contrato ao meio. O custo já não está no lugar, está no token. E os tokens não se comportam como licenças bem-comportadas: multiplicam-se de forma não-linear, escondem-se, e num fluxo com vários agentes disparam geometricamente. Cada agente lê ficheiros, planeia, tenta, falha, tenta outra vez, chama ferramentas e cada um desses passos tem preço.

O resultado tem episódios dignos de série. A Meta lançou internamente, em abril de 2026, um leaderboard chamado "Claudeonomics" que classificava os seus 85 mil colaboradores por consumo de tokens, com direito a distintivos como "Token Legend". O utilizador no topo queimou 281 mil milhões de tokens num mês. O leaderboard foi desligado poucos dias depois, provavelmente quando alguém das finanças fez as contas. A Uber gastou o orçamento anual de IA para código antes de terminar abril. Chama-se a isto token maxing: o hábito organizacional de mandar sempre o modelo mais caro e capaz fazer tudo, mesmo quando a tarefa pedia um utilitário. É usar um Ferrari para ir comprar pão e depois estranhar a fatura da gasolina.

O paradoxo é delicioso: o preço por token caiu cerca de 67% num ano. E, mesmo assim, 73% das empresas estouraram o orçamento de IA. Porque o número na tabela de preços desceu, mas a quantidade de vezes que esse número é cobrado explodiu. Não admira que a Gartner aponte para 207 mil milhões de dólares em software de agentes em 2026, mais de 130% acima do ano anterior, nem que ferramentas como o GitHub Copilot tenham migrado para créditos ligados diretamente ao consumo. O almoço grátis acabou. E, como sempre, ninguém viu a conta a chegar.

Isto é despesa de IT ou passou a ser custo de fazer negócio?

Esta é, para mim, a pergunta estratégica do ano. A tentação é arrumar os tokens na rubrica do IT, ao lado das licenças e dos servidores. Mas há uma mudança mais profunda a acontecer: o consumo de IA está a deixar de ser uma despesa de tecnologia para se tornar um custo de estrutura do próprio negócio, mais perto da eletricidade e da matéria-prima do que do orçamento do departamento informático.

Repare no que isto implica. Se cada proposta, cada resposta a cliente, cada análise passa por agentes, o token deixa de ser overhead e passa a ser custo unitário da operação. A métrica que interessa deixa de ser "quanto gastámos em IA" e passa a ser "quanto custa resolver um ticket, fechar uma proposta, produzir um relatório" comparado com o que custava antes.

Um fluxo cuja fatura de tokens duplicou mas que passou a tratar o triplo do volume, na verdade, ficou mais barato. Não é por acaso que a disciplina que geria a nuvem se está a transformar em Tokenomics, e que a governação destes custos deixou de ser assunto só de engenharia ou só de finanças, mas dos dois em conjunto: engenharia dona das alavancas, finanças com visibilidade sobre a economia unitária.

Ou seja: o CFO e o líder de negócio precisam de entrar nesta conversa, não como quem aprova uma licença, mas como quem define o modelo de custo do negócio. Porque é exatamente isso que está em jogo.

Então… sobrevivo se não apostar na IA?

Resposta honesta e sem marketing: provavelmente não da mesma forma, mas apostar mal também mata.

Não adotar é entregar terreno. Os high performers identificados pela KPMG em 2026, apenas 5% das empresas atingiram o dobro do retorno nos seus investimentos em IA, não por comprarem mais ferramentas, mas por redesenharem a forma de trabalhar à volta delas. Quem competir só por eficiência algorítmica acaba comoditizado; quem tratar o tempo poupado como recurso estratégico, reinvestindo-o em julgamento e relação, destaca-se.

Mas o oposto do imobilismo não é o entusiasmo cego. Adotar sem governação, sem saber quanto custa cada tarefa, sem um humano capaz de "desligar a ficha" a um agente descontrolado (e mais de um terço das empresas admite que hoje não conseguiria fazê-lo) é automatizar o caminho para a irrelevância a uma velocidade impressionante. Não ter ido all-in na IA nem sempre é resistência à mudança. Às vezes é só due diligence.

A conclusão a que chego, de dentro do problema, é esta: o vencedor de 2026 não é a empresa com o modelo mais inteligente. É a que soube decidir o que deixar em mãos humanas, quanto pagar por cada token de trabalho, e onde traçar a linha entre o que a máquina faz e o que só nós devemos assinar.

A tecnologia trata da capacidade. O julgamento continua a ser connosco.

Catarina Novo, Head of Innovation

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